Editorial

Heliana Conde, Leonardo Pinto de Almeida

Resumo


“La palabra es una entidad soluble. Una sustancia que sufre varios estados.”

Veronica Gerber Bicecci

 

“Deter-se, e depois partir de novo: eis o que é pensar!”

Fedro (de Paul Valéry)

 

Um editorial mapeia argumentos e propostas que povoam o número de uma revista. As revistas visam abrir um espaço comum entre autores/as e leitores/as para provocar e prolongar o pensamento.

O presente número se forma pelo conjunto de artigos que compõe uma parte especial, o dossiê “Escritura e Ressonância”, organizado pelo prof. Leonardo Pinto de Almeida, e outra parte que contempla os artigos avaliados e aprovados em nosso fluxo contínuo.

A parte especial sofre influência direta de autores franceses e alemães do século passado que tiveram seu olhar direcionado às vicissitudes da arte, sobretudo, da literatura, em suas relações com a subjetividade.

Maurice Blanchot e sua paixão pela literatura e pela exigência do internacionalismo na construção de um comum serviu de estopim para este projeto.

O internacionalismo necessário e pungente, nos dias de hoje, foi grande motivador da busca por redes de reverberação do pensamento fora das searas que limitam as fronteiras de nosso país e, inclusive, da disciplina psicológica.

Este dossiê conta com dez artigos de autores e autoras provenientes de países como Peru, Brasil, Espanha, Romênia e Argentina.

A paixão da literatura e a partilha do comum, veiculada pela escrita literária, se aproxima à expansão de seu espaço, mediada pela amizade.

Assim, estas questões inspiraram o conjunto de artigos que segue.

A apresentação de uma sequência de artigos é sempre uma leitura, visando uma organização para a recepção que direciona uma organicidade aparente aproximando questões esparsas.

O dossiê começa com dois textos que têm como base o pensamento heideggeriano. O artigo Octavio Paz y Martin Heidegger: acerca de la naturaleza del arte y la poesía de Eduardo Huárag Álvarez se debruça sobre as análises relativas à expressão literária em Paz e Heidegger, indicando possíveis aproximações.

Em A experiência da arte e a psicoterapia: reflexões fenomenológicas, Crisóstomo Lima do Nascimento segue uma reflexão a partir da obra heideggeriana sobre a criação artística, levando em conta um possível diálogo entre ela e a psicoterapia.

Carlos Augusto Peixoto Junior, em seu artigo Sobre a soberania da linguagem transgressiva em Bataille, se apropria da obra de Georges Bataille, focando principalmente nas questões relacionadas à transgressão no seio da linguagem. Em sua análise, propõe uma releitura dos comentários de Foucault e Derrida sobre tal questão para afinar nossa compreensão do conceito de transgressão.

Em Lo excrito de lo excrito, Isidro Herrera nos apresenta uma linda reflexão sobre a escritura à luz de um breve texto de Jean-Luc Nancy que recupera alguns pontos importantes do pensamento de Georges Bataille sobre a interrupção do discurso no interior do próprio discurso.

Depois do texto de Isidro Herrera, seguem cinco artígos com inspiração claramente blanchotiana. No entanto, cada um deles observa aspectos distintos da experiência literária.

Em A liberdade de uma cabeça cortada: Maurice Blanchot, literatura e revolução, Jefferson Eduardo da Paz Barbosa analisa a obra blanchotiana tendo como foco as relações entre literatura e revolução, traçadas pelo autor francês.

            Anca Calin, em Maurice Blanchot ou la matérialité de la langue, a partir da literatura, como espaço e experiência, traça um paralelo sobre a leitura e escritura literárias, ajudando os leitores e as leitoras a aprofundarem sua compreensão sobre o espaço literário na obra blanchotiana.   

            Em La imagen impersonal: espacio, materia y cuerpo de una resonancia inhumana, Noelia Billi se debruça sobre o espaço literário para construir uma análise apurada sobre as relações entre literatura e imagem.

            O texto El cuerpo resonante. Lo impersonal y lo neutro en la crítica a la noción de estilo en Maurice Blanchot de Idoia Quintana Domínguez apresenta uma crítica do estilo, recuperando algumas discussões acerca do neutro, para apontar as relações entre a escritura, o impessoal e a singularidade.

            Em Diálogos sobre personagens e acontecimento, Leonardo Pinto de Almeida e Juan Carlos Gorlier se apropriam de alguns debates sobre as noções relativas às personagens histórica, conceitual e original, para construírem uma argumentação que gira em torno das relações entre personagem literária e acontecimento.

            E terminando a parte especial deste número, está o artigo Escrita formal e paradoxo na psicanálise de Pedro Sobrino Laureano. Nele, o autor recupera a análise dos paradoxos lógicos formais da matemática e da lógica para pensar as bases conceituais da psicanálise à luz das noções de incompletude e de inconsistência.

            Depois desta parte em que se compõe o dossiê supracitado, segue o conjunto de artigos provenientes do fluxo contínuo de nossa revista. Nesse conjunto, embora a escritura não seja definida como o problema central, a reflexão sobre os efeitos da mesma jamais se ausenta, como tem sido habitual, aliás, em todos os números de Mnemosine desde o seu lançamento. Também tem sido habitual não apresentar previamente, no editorial, os artigos que compõem o número, tentando preservar o caráter de acontecimento, acaso e imprevisto dos discursos. Não nos furtamos a mencionar, no entanto, ao lado dos artigos brasileiros, a presença da tradução, que faz novamente ressoar o internacionalismo do dossiê “Escritura e Ressonância”.

Como sempre, as generosidades e amizades foram imprescindíveis para compor o número, o que conduz ao agradecimento a autores, pareceristas e tradutores, bem como a Simone Serafim e Daniel Maribondo, companheiros constantes de nossa aventura. Cumpre ressaltar essas generosidades e amizades principalmente em tempos como os nossos, em que a universidade pública vem sendo atacada por gente nada generosa e nada amiga, mas, ao contrário, sedenta de exploração e acumulação, voltada a destruir quaisquer iniciativas de composição de solos marcados pelo popular e pelo comum, como é o caso da UERJ, onde habita Mnemosine. Mais uma vez, com a atual edição, a UERJ existe e resiste.   

Sem mais o que acrescentar, convidamos nossos leitores e leitoras a usufruírem da maravilhosa capacidade humana de compor os sentidos, junto aos tipos negros impressos no presente número.

Boa recepção!

Leonardo Pinto de Almeida

Heliana de Barros Conde Rodrigues


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