Editorial

Adriana Rosa Cruz Santos, Heliana Conde

Resumo


Fernand Deligny afirmava que a proliferação de redes atinge seu ápice nos momentos em que os acontecimentos históricos parecem intoleráveis. Quando os espaços-tempos investem, concentracionários, sobre os corpos, as redes se tramam, forjando respiros e artes de viver.

É destes tempos sufocantes e com a alegria que forja a amizade que apresentamos este número especial de Mnemosine sobre Fernand Deligny, tramado com fios que entrelaçam UERJ e UFF, o Recôncavo e Cévennes, cinema e amizade, infância e insurgência, política e corpo. Deligny, que afirmava a rede como um modo de ser, emerge como um ethos nessas linhas traçadas no infinitivo, afirmando o viver, o camerar, o errar, o traçar, o agir, como movimentos que fazem derivar o homem-que-nos-tornamos, abrindo espaço para outros.

Artaud, o Momo, abre a edição, apresentando as armadilhas invisíveis que encarceram o corpo. Os ares concentracionários se desdobram na biopolítica medicalizante, nas engrenagens carcerárias contemporâneas e, inclusive, em bem articulados projetos de Psiquiatria Biológica. O trabalho mostra suas inúmeras faces, ora submetidas, ora insurgentes, o mesmo se podendo dizer da memória, potente e barulhenta quando insiste, narra, resiste. Reencontra-se a alegria que forja a amizade quando um filósofo querido traz às suas aulas um querido filósofo. O que diria cada um deles, hoje, desses tempos em que prolifera o intolerável e, com isso, também as redes?

Encerrando este número especial, apresentamos a primeira parte da Jornada Fernand Deligny: a arte da tentativa, realizada em 04 de dezembro de 2015, em Niterói. Noelle Resende introduz a trajetória do poeta-educador e suas incansáveis tentativas de tecer um comum em redes de viver. Thalita Melo discute uma vida que se teceu por meio da escrita, fazendo-a derivar dos usos e possibilidades regulares, ensaiando no infinitivo um escrever aracniano. Encerrando a seção, Eder Amaral apresenta a rede Deligny-Truffaut em torno da produção de imagens outras e de outros modos de vi-ver a infância.

Como criador de circunstâncias, Deligny reaparece em sua própria voz na entrevista a Jean-Paul Monferran, onde é possível entrar em contato mais direto com seu modo errático e errante de pensar, desmanchando, a cada indagação do entrevistador, qualquer possibilidade de circunscrevê-lo a um único lugar.

Na seção Biografia, encerrando este número especial, temos a republicação de um belo artigo de René Lourau, no qual o socioanalista destaca a crítica de Deligny ao simbólico como fundamento ontológico, ampliando a teia aracniana-deligniana com Clastres, Simondon e Stern, para mencionar apenas alguns fios.

Enfim, caros leitores, em tempos em que abundam projetos e gestos intoleráveis, desejamos que o encontro com essas vozes múltiplas e conectadas pelo fio sutil da resistência a diferentes tipos de regulação e controle possa ser inspiração para outras tantas tentativas.

Boa leitura!

 

P.S.: setembro de 2017. A UERJ re-existe, resiste. Melhor dizendo, a Uerj EXISTE. Obrigada pelos apoios diretos e distantes, sem jamais deixar de mencionar Simone e Daniel. E de evocar todos os que escreveram e, com isso, nos fortaleceram. 


Palavras-chave


Editorial 2017.1

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