Dança: uma ferramenta potencializadora da subjetividade

Patrícia Spindler

Resumo


Esta produção é fruto de um trabalho realizado para obter o título de Especialista em Psicologia Social pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul no ano de 2002, trabalho este que foi se compondo no decorrer da minha prática de psicóloga e que possibilitou aproximações com um outro mundo que me habita: o universo da arte através da dança. Fui professora de dança de um grupo de mulheres adultas que se agrupou com o objetivo de ter aulas de dança. No entanto, este grupo propiciou encontros semanais onde estes momentos se constituíram em um espaço para se estar em relação de um jeito diferente, um jeito em que se podem criar novos dispositivos para dar passagem ao desejo, permitindo inventar uma nova sensibilidade, uma outra forma de existir e dar conta da sua existência. Modos de evitar a exclusão provocada por um mundo que promete possibilidades, mas apenas ilude e acaba isolando qualquer tentativa de resistência, autonomia e liberdade. As aulas se davam a partir dos movimentos, das músicas e das conversas que tínhamos quando parávamos tudo para falar e ouvir. Pretendia a construção de uma resistência ao mundo tarefeiro, ao desgaste cotidiano, à solidão, à opressão, à depressão e a tantas outras questões que por ali perpassavam e iam se compondo. O trabalho potencializava a relação subjetividade-corpo da qual estamos tão carentes no mundo contemporâneo, e a psicologia pouco tem contribuído nesta questão. A dança estava como uma ferramenta que propõe o corpo-pensamento se mostrando potente para inventar o mundo e a si, tentando o belo e um refazer-se a cada movimento, a cada passo. Cada uma a seu tempo e a seu jeito, elas se permitiam violentar-se, no sentido de que a composição daquele mapa de sensações experimentadas ia delineando um novo contorno para a subjetividade. Uma nova subjetividade, que impele o “outramento” e que busca dar consistência a um corpo que possa se movimentar espontaneamente. Um corpo investido de uma subjetividade nascente. Em função disto, penso que realizávamos uma experiência clínica no sentido do klinamen, pois a dança pode ser, em muitos momentos, uma ferramenta para habitar o espaço entre a instabilidade, o desvio e a criação de novos territórios existenciais. Nossas aulas foram uma experiência desestabilizadora que nos convocou a um exercício de deslocamento de nós mesmos, fazendo da dança uma ferramenta para captar e potencializar a produção de processos de subjetivação e experimentar um jeito de pensar e fazer a clínica como potencializadora da vida.

Palavras-chave


clínica ampliada; subjetividade; dança

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